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De pais para filhos: quebrando os tabus sobre sexo

Por Breno Rosostolato

Falar sobre sexo com o filho ainda é uma dificuldade para inúmeros pais. Resistência, vergonha, situações constrangedoras e falta de desenvoltura são alguns fatores que impossibilitam os adultos de entrarem em contato com este aspecto nos filhos. Muitos pais, por conta da própria educação, de uma criação rígida e muito reprimida sexualmente, perpetuam esta rigidez e conceitos que deveriam ser desmistificados. Estas concepções sexuais se mantêm quase que intocáveis e criam raízes cada vez mais sedimentadas e petrificadas nas famílias e na sociedade.

A atual geração não vê mais limites para falar sobre o assunto, pelo contrário, os adolescentes solicitam uma explicação e orientação sobre um assunto que é costumeiro na roda de amigos, faz parte do cotidiano das escolas, das baladas, que a sociedade convive com mais abertura. Falar é necessário e conviver com um mundo sexualizado, que autoriza o jovem a se entregar ao ato, é muito distante ainda da construção que esses adolescentes fazem sobre sexo, prazer e desejo. As lacunas existem e para algumas pessoas são verdadeiras crateras, que crescem e prejudicam a percepção de si e dos outros. Muitos jovens, fechados no próprio mundo, acham nos amigos uma “válvula de escape” sobre suas questões e dúvidas mais íntimas.

Sexualidade é constituinte da identidade psíquica e são esses buracos que podem ocasionar distorções e considerações equivocadas sobre sexualidade. O adolescente não possui referência, modelos e tende a se perder em suas próprias escolhas, uma vez que se vê obrigado a trilhar caminhos obscuros por necessidade de aceitação dos outros colegas, do grupo. Busca ser valorizado pelo outro e para tal, se submete à situações conflitantes. A iniciação sexual é a travessia do abismo do desconhecido e rompe com expectativas e idealizações do ato. A ponte construída deve ser elaborada através do conhecimento, em que se desapegam da condição de criança ingênua, da infância e caminha para a vida adulta, de responsabilidades, inserção no mercado de trabalho, autonomia e tomadas de decisões. Os pais e cuidadores devem ser os interlocutores deste momento de desabrochamento na vida dos jovens. Diga-se de passagem, não só sobre sexo, mas os pais devem participar ativamente das transformações dos filhos e são responsáveis por orientá-los sobre a vida sexual, transmitindo segurança e informação.

O adolescente sabe como fazer sexo. Possuem noções de posições, maneiras e conhecem minimamente a execução, mas não se atentam ao uso do preservativo, prevenções de doenças, gravidez indesejada e principalmente das implicações emocionais inerentes ao ato sexual. A educação sexual deve discutir sentimentos, desejos, limites, a percepção do corpo e do prazer.

Esta construção a respeito da sexualidade e práticas sexuais inicia-se na infância. Os pais vão se deparar com a famosa fase dos “porquês” e é natural as crianças investigarem sobre a própria existência. numa linguagem acessível à criança, os pais devem ser claros e objetivos, sem a necessidade de explicações detalhadas sobre sexo. Não deixe o filho sem uma resposta. Nada de explicações mágicas ou abstratas, mas seja coerente e concreto. Construa desde este momento um vínculo de confiança e cumplicidade. Mais adiante, já no início da puberdade, a partir dos dez anos, a conversa pode avançar no sentido de explicar mudanças no corpo do pré-adolescente como o tom de voz, o crescimento dos pelos, das mamas e do quadril. Falar sobre masturbação e menstruação são igualmente importantes. Para as meninas é apropriado abordar a questão da gravidez e uma visita ao ginecologista pode facilitar a compreensão sobre a primeira menstruação (menarca) e corrimentos. Para os meninos, dúvidas e inseguranças sobre o tamanho do pênis são prontamente esclarecidas com o médico. Os pais devem manter sempre o diálogo e reforçar o discurso de confiança e de acolher a eventuais dificuldades dos filhos.

Na adolescência o diálogo deve ser constante, sem ser invasivo e agressivo. Uma boa prática é os pais se colocarem no lugar dos filhos e se remeterem à própria adolescência. Reviver os conflitos do passado ajuda a se posicionarem diante das incertezas dos filhos. Nada de perguntar se “já transou”. Perguntas constrangedoras inibem o adolescente. Seja aberto e não assuma uma postura arbitrária, com imposições, regras rígidas e desconfiança. A velha questão de namorado dormir em casa deve ser conversada. A proibição sem contextualização é arbitrariedade. Não censure seu filho e lhe dê espaço para ele se expor e opinar. Escute o que ele tem a dizer.

Converse sobre os amigos do filho e procure conhecê-los, bem como os pais deles. A melhor maneira de abordar a iniciação sexual dos filhos é através de exemplos e tentar ilustrar através de outras pessoas situações que respaldem aquilo que está sendo vivido. A relação entre os amigos do filho com os pais deles podem ser boas referências.

Os preservativos devem ficar à disposição do jovem. Desta maneira o conceito de sexo seguro é internalizado, o que desmitifica a ideia de imprudência e inconsequência. O sexo não é sujo, podre e ruim. Deve ser entendido como algo natural, gostoso e prazeroso e ao mesmo tempo não é obrigatoriedade. É importante o adolescente saber que não deve se submeter à prática sexual se não quiser. O “sim” pode ser dito, mas o “não” é imprescindível também. Sexo quando quiser e quando se sentir preparado para tal, sem pressão. A concepção do sexo deve permear a liberdade e ser uma sustentação para autonomia. Sexo não é moda, tampouco instrumento para se popularizar. Deve ser feito com responsabilidade e segurança. Os benefícios à uma conscientização sexual estão implícitos na própria permissão à ele. Se necessário, livros sobre o tema também podem contribuir para este aprendizado.

O que os pais devem compreender é que desta maneira não estão banalizando o ato sexual ou incentivando os filhos a terem comportamentos promíscuos ou precocidade. É justamente o contrário. Com informação e referência os filhos ampliam seus caminhos e ponto de vistas. Sentindo-se seguros, os adolescentes estão respaldados e mais confiantes.

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